Apresentação do tema da XVIII Semana da Biologia

26/05/2017 01:07

UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA CATARINA
Convite para a XVIII Semana da Biologia

“Com as palavras todo cuidado é pouco, mudam de opinião como as pessoas”
(Saramago – “As Intermitências da Morte”)

Bio(A)Diversidades, tantas palavras e sentidos possíveis! Temos imenso prazer e preocupação em divulgar a temática da XVIII Semana Acadêmica da Biologia. Prazer pois nos faz lembrar o quão diversa é a biologia como ciência, como ela é movida por diferentes interesses e como ela agrega profissionais dos mais variados matizes teóricos e ideo-políticos. Preocupação, pois o momento de adversidades que estamos vivendo requer uma cuidadosa discussão acerca do futuro da biologia e de biólogos educadores.
A palavra biodiversidade foi idealizada e apresentada ao mundo como conceito em 1985, pelo botânico Walter G. Rosen no Fórum Nacional sobre Biodiversidade em Washington-EUA. Foi cunhada no momento em que a sociedade voltava os olhares para os apontamentos das comunidades científicas sobre a possibilidade de extinção das espécies em escalas mais amplas que as esperadas evolutivamente.
Nos anos subsequentes, estabeleceu-se a noção de conservação da biodiversidade, como uma forma de ampliar o foco do antigo jargão de preservação da “vida selvagem”, para a importância da “diversidade de espécies e os ambientes que lhe servem de suporte, ao mesmo tempo que são suportados por ela e que são, simultaneamente, o palco e o resultado – sempre inacabado – do processo evolutivo” (FRANCO, 2013, p. 25).
A partir deste conceito é que se estabelece a ideia de que vivemos, há muito tempo, um momento de crise ambiental, construída pela nossa espécie. Sobre essa ideia tem sido propostas políticas científicas e tecnológicas, políticas educacionais, e até campanhas publicitárias e que, em sua grande maioria, excluem a espécie humana da ideia de biodiversidade. Contraditório, não?
Layrargues (2002) nos alerta que a crise ambiental é em parte construída sobre a negação da ideia de que ela está intrinsecamente vinculada à crise social que vivemos na contemporaneidade. A responsabilidade que profissionais vinculados às Ciências Biológicas têm para com a biodiversidade, poderiam ir além do campo considerado “natural” e adentrar no campo do “social”, contribuindo para a superação da dicotomia Sociedade x Natureza.
Ainda é importante lembrar que, historicamente, a biologia se configurou como ciência que atendeu as políticas eugenistas, de dicotomização e inferiorização de gênero, de espécies e raças e saberes, ou seja, em certa medida, a biologia buscou reduzir as diversidades. Esse passado é frequentemente deixado de lado em nossos discursos de iniciação científica, já que os processos históricos de construção dos conceitos pouco permeiam os currículos de formação de biólogas educadoras. Mia Couto nos aponta que “o que fez a espécie humana sobreviver não foi apenas a inteligência, mas a nossa capacidade de produzir diversidade. Essa diversidade está sendo negada nos dias de hoje por um sistema que escolhe apenas por razões de lucro e facilidade de sucesso” (COUTO, 2011, p. 9).
Diante disso, a XVIII Semana de Biologia pretende colocar no centro de sua pauta questões como: quais são as responsabilidades da biologia para com a (a)diversidade (de indivíduos, de humanos, de saberes…)? Quem determina o que pesquisamos? Que (a)diversidades as ciências biológicas vem produzindo? A quais interesses (a)diversos elas atendem? Como vem respondendo às atuais adversidades? Queremos uma escola sem pinto?*
Assim, gostaríamos de convidá-los a sugerir convidadas ou temas a serem abordados durante a XVIII Semana da Biologia, que ocorrerá do dia 18 ao dia 22 de setembro de 2017. Para isso, preencha o formulário até o dia 31/05/17. Link para o formulário: https://goo.gl/forms/ud9gxYxLggwcgwIS2
Atenciosamente,
Comissão facilitadora da XVIII Semana da Biologia

*http://brasil.elpais.com/…/17/opinion/1492435392_872941.html

LAYRARGUES, Philippe Pomier. A conjuntura da institucionalização da Política Nacional de Educação Ambiental. OLAM-Ciência & Tecnologia. Rio Claro, v. 2, n. 1, p. 1-14, 2002.

COUTO, Mia. E se Obama fosse africano. Editora Companhia das Letras, 2011.